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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

1499: o Brasil antes de Cabral por Reinaldo José Lopes

1499: o Brasil antes de Cabral por Reinaldo José Lopes.

 

Este é um dos melhores livros de divulgação científica lançado em 2017. O objetivo do autor é tirar da cabeça de nós, pessoas comuns, a imagem clássica e equivocada do Brasil pré-Cabral, aquela de um paraíso terrestre tropical. Para isso, o autor faz uso de dados de arqueologia, antropologia, história natural e genética molecular. Trata-se de uma exposição sucinta e muito bem escrita de como eram as sociedades humanas no Brasil antes do descobrimento. O autor, Reinaldo José Lopes, é um renomado jornalista que possui uma coluna na Folha de São Paulo e vencedor do “Prêmio José Reis de Divulgação Científica”, concedido anualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O livro está dividido em seis capítulos mais uma introdução e um epílogo. O texto é escrito de uma maneira quase coloquial e faz com que o leitor se sinta numa conversa de amigos, mas ao mesmo tempo o autor imprime um ritmo conciso repleto de informações interessantíssimas.

O primeiro capítulo é dedicado a Luzia, conhecida a partir de reconstruções forenses de um dos crânios mais antigos já encontrados no continente Americano (cerca de 12 mil anos). Reinaldo nos conta como esse crânio chacoalhou a comunidade científica e a hipótese predominante sobre a origem do Homem na América. Afinal, as características morfológicas de Luzia são mais similares a crânios ‘africanos’ desfazendo a ideia de que o continente foi inicialmente habitado por povos siberianos com características cranianas ‘mongoloides’. Assim, neste capítulo viajamos no tempo, e o autor nos coloca frente a frente com animais tão estranhos como‘tigres’ dentes-de-sabre, preguiças-gigantes e elefantídeos, todos extintos hoje, mas que conviveram com o povo de Luzia. O autor coloca as principais hipóteses sobre como era esse convívio e como esses animais gigantes podem ter sido extirpados do planeta.

O capítulo 2 descreve as sociedades que formaram os famosos sambaquis encontrados em quase todo o litoral do país e que datam de 8500 anos. Aqui Reinaldo desmistifica a ideia do senso comum de que essa sociedade era formada por pessoas ociosas que apenas acumulavam essas conchas como uma espécie de lixão pré-histórico. O autor mergulha nas pesquisas que decifram que os sambaquis eram usados principalmente para propósitos rituais e simbólicos. Ele descreve um desses sítios onde estima-se que ao longo de oito séculos foi local de enterro de cerca de 40 mil corpos. Essa estimativa sugere uma população constante de vários milhares de moradores nas vizinhanças imediatas de apenas um sambaqui.

O capítulo 3 descreve uma verdadeira revolução agrícola que data de 6500 anos. O autor descreve algumas formações florestais na Amazônia claramente construídas pela mão do Homem, as chamadas ‘florestas-antropogênicas’. Aqui aprendemos que os habitantes da Amazônia já começavam a domesticar muitos vegetais que eram parte da dieta destas populações: a castanha-do-pará, a pupunha, a mandioca, o cacau, várias pimentas e o enigmático milho (domesticado originalmente no México, mas cuja tecnologia foi adotada pelos índios amazônicos). Como isso aconteceu está muito bem explicado no texto.

O capítulo 4 é dedicado à civilização marajoara que floresceu por volta do ano 2000 antes da era cristã. Reinaldo traça um panorama do que sabemos sobre esse povo, explica o que significam os famosos tesos encontrados na ilha de Marajó, descreve a arte que aparece na sua cerâmica e desemboca no tipo de relações ecológicas e sociais que eles mantinham.

O capítulo 5 é dedicado aos diversos núcleos de crescimento populacional e poderio político na Amazônia Central. Aqui o autor mostra que o cenário populacional amazônico pré-cabralino era extremamente diferente daquele encontrado pelos primeiros exploradores europeus do século XVI, que descreviam um vácuo demográfico na região. Ficamos assim conhecendo as mais recentes descobertas sobre o povo Tapajó, uma poderosa chefia ribeirinha cuja capital era onde hoje se encontra a cidade de Santarém. Na sequencia conhecemos a cultura Maracá, responsável pelos círculos de pedra do Amapá, conhecidos como o ‘Stonehenge amazônico’ e o maior conjunto de urnas funerárias da América pré-colombiana. Neste capítulo há também a descrição da complexa sociedade do Alto Xingu e dos povos responsáveis pelos imensos geoglifos do Acre.

O capítulo 6 descreve a origem, a demografia e a cultura Tupinambá, cujo auge se deu imediatamente antes da chegada de Cabral. Aqui o autor nos mostra a complexidade cultural desse grupo que habitava todo o litoral leste do país, mas que viviam em guerra entre eles mesmos.

O epilogo é uma discussão muito interessante e pertinente sobre as hipóteses de como e porque os povos do Brasil pré-histórico foram derrotados pelos europeus. O autor escreve sobre as vantagens obtidas pelos povos europeus a partir da domesticação de animais grandes e as doenças associadas a esta domesticação e como isso pode ter sido um dos fatores preponderantes para a derrocada dos Tupinambás.

O livro é muito bem escrito e acredito que poderia e deveria ser lido por qualquer brasileiro. Em cada capítulo há uma espécie de preâmbulo onde o autor descreve as inovações técnicas e os conceitos básicos para entendermos como são feitas as datações; como os biólogos conseguem recuperar dados populacionais, de dieta e datas de domesticação a partir de análises de DNA; como os antropólogos definem os tipos de sociedades; como as línguas de cada tribo foram formadas. Neste sentido o livro é extremamente informativo e valioso como base para quem quer se aprofundar nesses assuntos. Há no final uma lista de referências bibliográficas mostrando de onde o autor tirou seus argumentos.

O livro é uma grata surpresa neste país onde a ciência é muito pouco compreendida e extremamente desvalorizada. É o país também onde os cientistas não conseguem fazer a divulgação dos seus trabalhos em termos populares. É divulgação científica da melhor qualidade porque usa uma linguagem comum a todos nós. O livro deveria ser um best-seller e espero que seja tema de questões do ENEM, pois trás assuntos atuais e relevantes para que possamos evoluir como seres humanos e como nação.

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