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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

Cactos brancos

Flores de pitaia (Foto M Rodrigues).

Flores de pitaia (Foto M Rodrigues).

Cactos brancos e morcegos linguarudos

É noite. Uma tigela de seda branca e fina, recheada por longos estames impregnados por pólen amarelo ouro, todos eles sustentados por um pecíolo ramificado de um caule cuneiforme verde. A seda branca não mais é do que dezenas de pétalas, tão brancas quanto o brilho da lua. Esta flor gigante mira a noite de céu estrelado nesta que é possivelmente a última noite quente de verão austral durante o qual as chuvas não vieram. Eram quatro destas tigelas. É provavelmente uma Hylocereus, uma trepadeira da família dos cactos, a Cactaceae, conhecida como pitaia.

O caule deste cacto atingiu o dossel de uma velha árvore morta do meu jardim e não sabe mais para onde crescer. Então, floresceu. Logo abaixo da árvore percebo um espetáculo ainda maior.

Uma planta epífita, dessas que vivem penduradas sobre galhos de plantas maiores, agarradas numa pequena fresta de um tronco qualquer, com folhas finas e quase medíocres, mas que do seu meio explode um pecíolo que segura outra larga tigela de seda branca e longos estames impregnados por pólen amarelo. Na verdade, estas estruturas que se parecem com folhas não são as folhas, mas caules e ramos fotossintetizantes. Nos cactos, com raras exceções, as folhas se transformaram nos espinhos que os adornam.

É uma dama-da-noite1, outra cactácea. Elas não são parasitas, mas acabam tirando espaço das plantas em que estão penduradas e suas raízes aéreas conseguem acumular partículas de pó e matéria orgânica sobre elas. A dama-da-noite é originária das florestas úmidas da Amazônia e América Central, mas hoje é cultivada em todo o mundo devido à beleza ímpar de sua flor gigante.

Ainda espantado com tanta formosura, outra mancha branca no meio do escuro da noite me chama atenção. Um tronco ereto de cacto pouco espinhoso que vive tristemente à sombra de dois gigantes que reinam no jardim: a mangueira e o ipê-roxo. Este cacto foi ali plantado ingenuamente em local errado, na sombra, e por isso quase não cresce, mas esta noite resolveu botar suas mangas prá fora. Floresceu uma enorme tigela de pétalas sedosas brancas que rodeiam estames abarrotados de pólen amarelo.

É o mandacaru, cactácea típica das caatingas do nordeste, “que quando fulora na seca é o sinal que a chuva chega no sertão”2. Ainda aguardo a chuva.

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Flor solitária de noite única da dama-da-noite (Foto: M Rodrigues)

 

Três espécies de cactos floresceram simultaneamente no meu jardim, todas elas com essas enormes e gloriosas flores brancas que duram apenas uma única e singela noite. Uma noite apenas. Abrem-se simultaneamente, exalando um perfume almiscarado, seco e discreto.

São flores tipicamente visitadas por morcegos, mamíferos noturnos que conseguiram dominar a arte do voo, sonho de todos os seres humanos, e por isso pagam o preço de nossa inveja, e nós, como pretensos senhores do universo, lhes damos a alcunha de feios, vampiros indesejáveis. Mas os biólogos tentam reverter esse quadro falacioso.

Plantas que têm os morcegos como polinizadores tendem a possuir flores grandes e brancas, geralmente com um leve odor almiscarado. Essas flores se abrem à noite, quando os morcegos estão ativos e muitas têm o formato de uma tigela com centenas de estames longos abertos como uma vassoura. Assim, quando os morcegos as visitam procurando pelo néctar açucarado produzido em pequenas glândulas na base dos estames, acabam lambuzando suas caras com toda a carga do pólen na ponta dos mesmos. Muitas destas plantas quiropterófilas (assim chamada pelos biólogos porque deriva do nome grego para morcego: ‘cheir’ = mãos e ‘ptero’ = asa), abrem suas flores em posições que facilitam a visita dos morcegos.

Os morcegos nectarívoros (que se alimentam de néctar), diferentemente da maioria dos outros morcegos, se orientam basicamente utilizando o olfato para detectar essas enormes flores brancas. Com o olfato eles conseguem localizar flores que estão distantes e quando se aproximam dos odores utilizam a visão para se orientarem. O sentido do olfato é bastante desenvolvido nestas espécies, que têm um focinho longo, especialmente desenhado para sentir o perfume das flores e para introduzi-lo o mais próximo possível da câmara onde está o néctar.

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Um típico morcego comedor de néctar do gênero Glossophaga (fonte; http://www.quazoo.com/q/Bat ).

 

Morcegos nectarívoros evoluíram línguas altamente especializadas para coletar o néctar das flores. Eles possuem línguas muito longas e a ponta é coberta com uma longa cadeia de papilas filamentosas que se assemelha a uma escova ou esfregão. Durante a alimentação, os vasos sanguíneos na ponta da língua se tornam cheios de sangue e as papilas ficam eretas. Esse intumescimento e a ereção das papilas persistem durante a sua retração da língua e o néctar, preso entre as fileiras de papilas, é assim levado para dentro da boca3.

Quando estes morcegos sugam o néctar destas flores, o pólen fica preso aos seus pelos e quando o morcego, coberto de pólen, toca o estigma de outra flor, acaba polinizando-a.

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Sequencia de imagens que mostra a língua do morcego sugando um líquido com a mesma viscosidade do néctar (Figura adaptada de Harpera et al. 2013 por G. Freitas)

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Mas estas majestosas flores têm seu destino fatal. São poucas horas de altivez. Amanhecerão murchas, exaustas, desprovidas de vida. Talvez porque uma noite apenas seja suficiente para que sejam polinizadas. Talvez pela intensa aura que lhes foram concedidas unicamente por aqueles momentos e que lhes roubam toda a energia. Passo a noite em vigília, pois sei que será uma única noite. Uma noite única.

 

Para saber mais

1- Provavelmente Epiphyllum oxypetalum.

2- O xote das meninas, Luiz Gonzaga.

3- Harpera, C. J., S. M. Swartza & E. L. Brainerda. 2013. Specialized bat tongue is a hemodynamic nectar mop. Proceedings of the National Academy of Sciences: www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1222726110 .

 

 

 

 

 

 

 

 

17 Comentários

  1. Belíssimo texto! A majestosa descrição de cada detalhe de diferentes formas de vida encanta e presenteia uma noite de leitura e observação de algumas destas admiráveis criaturas também aqui no meu quintal 😉

    • Rafaela, elas estão por todos os quintais… as vezes escondidas. Abraço.

  2. Belo texto Marcos, parabéns

    • Obrigado André.

  3. Belíssimo texto, fotos lindas. Parabéns.

    • Obrigado Aline.

  4. Texto lindo e didático, tive o prazer de trabalhar um tempo com morcegos, são animais encantadores !

  5. Parabéns Marcos…. marrrravilhoso! Obrigada por compartilhar.. abs Dayse Campista da Amazônia

    • Obrigado Dayse.

  6. Ótimo texto! O tom poético combinado com as informações científicas foi excelente escolha, parabéns!!!!

  7. Felizes os homens que reconhece a importância dos mais simples comportamentos da natureza. Lindo texto!

  8. Ótimo texto Marcos! Poético e instrutivo! Parabéns! Os morceguinhos são realmente fantásticos!

  9. Encantada com sua tamanha sensibilidade ao descrever seu momento de forma técnica, como também polinizando um enredo poético.
    Mesmo desconhecendo detalhes técnicos abordados, consegui sentir-me presente nessa perfumada noite que me embriagou.
    Abraços.

  10. A forma que o senhor descreve as plantas, os animais, as cenas parece que posso vê-las, não apenas neste texto mas em muitos outros. Parabéns

  11. Quantas informações num texto delicioso!Seu estilo cativa o leitor. Abraço

  12. O cacto-rabo-de-rato e uma especie suculenta, muito ornamental e florifera, que em seu habitat comporta-se como epifita ou rupicola. Ele e originario do Mexico e atualmente e um dos cactos

  13. Marcos, você nos ensina a olhar com atenção para os detalhes que nos se apresentam a cada instante, e a buscar mais informações, que nos esclareçam sobre o que pode ser belo, aos nossos olhos. Agora, o seu estilo, este eu não consigo apreender: é seu.

    Meus parabéns por mais um elaborado e instigante artigo!

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