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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

Filhotes precociais e nidífugos de aves: um passo a frente!

Texto de César Cestari

Você já imaginou se alguns bebês nascessem de olhos abertos, com instintiva capacidade de locomoção e de buscar o seu próprio alimento? Talvez, se isso fosse uma realidade, muitas mães poupariam grande parte de seus esforços para amamentarem seus filhotes e reservariam energia para outras atividades. Os fictícios “bebês precociais” teriam uma grande vantagem competitiva em relação aos bebês comuns, por não terem tanta dependência de seus pais.

Quero-quero (Vanellus chilensis), foto de C. Cestari.

Quero-quero (Vanellus chilensis), foto de C. Cestari.

Apesar de estranho para o ser humano, a existência de filhotes precociais (que nascem de olhos abertos e com plumagem) e nídifugos (que instintivamente abandonam o ninho logo após o nascimento e podem capturar seu próprio alimento) é a realidade de muitas espécies de aves1! Um exemplo é o quero-quero (Vanellus chilensis), uma espécie esbelta, de pernas longas, habitante de campos, e … barulhenta! Qualquer aproximação de algum organismo “diferente”, principalmente quando os adultos estão dentro de seu território e próximos de seus filhotes, eles logo começam a vocalizar e realizar ataques aéreos contra o suposto intruso. Por não terem que alimentar diretamente os seus filhotes, é razoável supor que os pais gastem parte de sua energia defendendo-os contra predadores, aumentando ainda mais a probabilidade de que sobrevivam. Por sua vez, além de possuírem a capacidade de capturar alimentos (às vezes, com algumas demonstrações de “como fazer” pelos pais), os filhotes de quero-quero também possuem sua própria proteção: a plumagem extremamente camuflada para o ambiente em que vivem. Algumas vezes andando pelo campo, encontrei filhotes de quero-quero que instintivamente deitaram-se no chão, tentando se esconder.

As espécies pertencentes à família dos patos (Anatidae) também possuem filhotes precociais e nidífugos. Um belíssimo representante é o pato-do-mato (Cairina moschata), espécie de grande porte e arisca que em hábitat natural se afasta de qualquer aproximação humana. Ao longo dos séculos, essa espécie foi domesticada pelo homem e hoje pode ser encontrada em áreas rurais e até praças de cidades compartilhando o mesmo espaço com pessoas. Semelhantemente ao quero-quero, os adultos do pato-do-mato gastam parte de sua energia protegendo seus filhotes, porém utilizam uma tática menos agressiva: a distração de potenciais predadores com alguma simulação de injúria. Geralmente, o adulto simula uma asa-quebrada para atrair a atenção dos predadores próximos de seus filhotes. Assim, a maioria dos predadores é ludibriada e tenta seguir o adulto, desviando a atenção dos filhotes2. Os filhotes de patos também possuem a plumagem camuflada e em algumas ocasiões, também podem deitar-se no chão para se esconderem de potenciais predadores.

Os diferentes comportamentos instintivos exibidos precocemente pelos filhotes das espécies citadas e moldados pela seleção natural influenciam na permanência de suas populações e podem ser uma vantagem ecológica em relação a outras espécies nas quais competem diretamente. Como exemplo, observei que o pato-do-mato (C. moschata), introduzido em algumas cidades no estado da Flórida (Estados Unidos), está conseguindo se estabelecer e se propagar rapidamente, muito provavelmente prejudicando espécies que ocupem nichos ecológicos semelhantes. Na Nova Zelândia, em várias tentativas de introdução de espécies de aves pelo homem, o sucesso foi maior utilizando as aves nidífugas3.

Sejam as espécies nativas ou introduzidas, devemos ficar de “olhos bem abertos” sobre as vantagens ecológicas que as aves precociais e nidífugas podem ter em relação às espécies altriciais e nidícolas!

 

Para saber mais:

  1. Sick, H. 1997. Ornitologia brasileira. Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
  2. Cestari, C. 2009. Comportamento de fuga do filhote de anu-branco (Guira guira)(Cuculiformes: Cuculidae) e exemplos de defesas anti-predatória precoce em aves. Atualidades Ornitológicas, 147:66-68.
  3. Sol, D. & Lefebvre, L. 2000. Behavioral flexibility predicts invasion success in birds introduced to New Zealand. Oikos, 90: 599-605.

4 Comentários

  1. A gente acha que sabe alguma coisa, e de repente, vê que nao sabe coisa alguma. Eu jamais diria que há ninhadas com estas características.

    Se os seres humanos nascessem e já saíssem andando pra ir pra faculdade, talvez eu pensasse em ser pai, viu. hehe

    Hmmm acho que nem assim.

    Excelente texto, Marcos!

  2. Já presenciei esse comportamento dos filhotes de quero-quero, deitam-se no chão e andam agachados se o intruso se aproximar muito.
    Realmente interessante o quanto confiam em sua tática e camuflagem.
    Já os pais zelosos que são, providenciam voos rasantes em defesa dos pequenos.

  3. Passo todos os dias num lugar onde tem provavelmente um casal de quero quero com três ovinhos, o lugar tem grama, córrego, todo cercado por grades, quando estou chegando perto eles gritam e um vai em cima dos ovinhos. Eu de longe acompanho o crescimento dos ovos esperando nascer pra poder ver e apreciar pela primeira vez mesmo de longe. Que privilégio poder conviver com a natureza.

  4. Muito bacana, sinto falta de mais textos! Escreva mais!

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