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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

No país das sombras longas

TEXTO DE SAMANTHA KLEIN

Desde pequena, sempre me fascinaram as histórias dos homens que viviam no Norte, ao meio das focas e ursos, que vestiam roupas feitas inteiramente de peles, que se cumprimentavam com esfregões de nariz e se abrigavam do frio em casas construídas de pedras de gelo. O que eu não sabia, é que depois de muitos anos, mergulhar-me-ia novamente nesse mundo paralelo ao tropical… E pasma, descobriria que os contos de minha infância são muito mais complexos do que eu imaginara…

Fonte: http://global.britannica.com/EBchecked/topic/282275/igloo

Fonte: http://global.britannica.com/EBchecked/topic/282275/igloo


Hans Ruesch, em seu livro intitulado “No país das sombras longas”, nos apresenta a história e a cultura dos povos esquimós através da vida e legado de um excêntrico personagem: Ernekek. Esse grandioso caçador esquimó – com forte temperamento boreal- passará por fases vitais intrínsecas da realidade cotidiana nas terras das noites de cinco meses.


Nas primeiras páginas do livro, já descobrimos um mundo baseado em regras sociais muito distintas das encontradas hoje em dia. Ernekek, como qualquer esquimó, se vê tomado por um urgente desejo e necessidade de formar sua própria família. Ou seja, encontrar uma das escassas mulheres nas terras gélidas, que saiba descongelar água para o chá, coser suas roupas de pele e mastigá-las para ficarem mais macias, que seja fértil e “ria” (referência esquimó para as relações sexuais) com ele durante o longo inverno e também para que ele possa emprestá-la orgulhosamente às visitas que possam frequentar seu iglu.


A posteriori, quando Ernekek vê edificado seu maior sonho através do roubo da jovem Siksik para servir como sua esposa, o protagonista se depara com o início de grandes mudanças que estão porvir em seu mundo: os primeiros rastros dos “homens brancos” chegam às terras das sombras longas.
Impulsionados pela curiosidade de conhecer esses novos visitantes, esse amoroso povo de sorrisos largos e de simplicidade impecável encontra-se com os raros homens do sul, que trazem consigo artefatos como fuzis, petróleo, aguardente, tabaco e suas insólitas concepções de moral e de um único deus.
Ruesch, neste livro, narra de maneira apaixonante a vida das várias gerações da família de Ernekek nas terras brancas do extremo norte do mundo, fazendo-nos refletir sobre as leis e morais da nossa cultura, muitas vezes baseadas em tabus e crenças sem fundamentos práticos e muitas vezes meramente religiosos.


Ainda, nos introduz a história e aos costumes desse povo boreal, que vive intimamente ligado à natureza e age com muita racionalidade e claridade em diversas ocasiões. Por exemplo, encarando a morte como uma etapa natural da vida, a ponto de sacrificar-se para salvar sua família faminta, servindo de alimento com o seu corpo. Ou, em sua velhice, caminhando em silêncio até a morte, por já não ser mais útil às gerações mais novas e já ter completado seu ciclo.


“No país das sombras longas” é uma volta à vida em harmonia com a natureza, de subsistência e simplicidade, sem necessidade dos caros luxos que os homens brancos necessitam para sobreviver, como suas grandes casas de difícil aquecimento, e o petróleo e o carvão que as esquentam. É a volta da compreensão que não se faz necessário caçar mais do que sua própria alimentação e vestimenta, que é possível ter uma vida plena sem propriedades, sem objetos pessoais e sem egoísmo.


Essa obra transpassa um mero romance e penetra profundamente em nossas ânsias vitais, criando uma auto-crítica sobre o que realmente necessitamos para viver e sobre como complicamos nossa vida por causa de regras impostas pela moralidade de nosso mundo, pelas religiões e pelos tabus e como criticamos todas as culturas que não estão de acordo com nossos parâmetros.


Esse livro, escrito em 1950, mas, todavia contemporâneo, é indicado a todas as pessoas que gostam de reconstruir-se como seres pensantes e sociais, que buscam incessantemente uma vida mais feliz, sincera, repleta e silente.
Boa leitura!

7 Comentários

  1. Livros assim deviam ser de leitura obrigatória a todos Homo sapiens… Já providenciarei o meu! Valeu por mais esta bela sugestão.

  2. A leitura deste texto despertou-me a curiosidade para ler este livro:”No país das sombras longas”
    Obrigada pela sugestão

  3. Um dos melhores livros que já li. Posteriormente assisti à adaptação para o cinema “Sangue sobre a neve” (The Savage Innocents), com Anthony Quinn e Peter O’Toole, que é interessante mas, obviamente, sem a capacidade de absorver tanto a atenção quanto ocorre com o livro.

    • Sem dúvida: filmes são filmes e livros são livros, mas acredito que Anthony Quinn e Peter O´Toole deixam qualquer filme mais filme. Grande abraço.

  4. Acabei de ler o livro, e posso dizer que foi o melhor que já li em toda a minha vida. A obra pode ajudar a esclarecer questões controversas de nosso cotidiano e nos ajudar a ter uma vida mais simples, saudável e honesta, tipica dos povos que vivem inseridos na natureza. Vou reler essa emocionante e inesquecível obra, que mudou a minha vida.

  5. Acabei de ler este romance.Li em poucos dias,pois estava maravilhada com a escrita e com a condição de vida que estes esquimós na época viviam.E indignada por pessoas “cristã”,mais uma vez deturparem o modo e as credinces daquele povo,levando a mentira,a discórdia, e todas as maledicências que a religião leva á todos os povos.deus bah!

  6. Digo crenças.

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