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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

Os barbeiros e as rendeiras

Os barbeiros e as rendeiras

Texto de César Cestari

Há alguns dias, tive o privilégio de reviver minha infância e juventude em minha cidade natal. Após 17 anos, voltei a cortar o meu cabelo em um verdadeiro barbeiro. Considerando apenas a minha idade, já são ao menos 35 anos que o mesmo grupo de barbeiros, formados por três senhores, continuam no mesmo lugar. Aliás, esta conta torna-se equivocada quando, no momento de minha entrada no pequeno salão, li uma faixa bem na frente do estabelecimento: “depois de 49 anos de trabalho, nos reservamos ao luxo de não cortamos cabelos aos sábados”.   Confesso, imaginei não encontrá-los mais ali depois de tanto tempo ausente. A organização do salão continuou a mesma, eu até me atreveria a dizer que continua idêntica: o bebedouro no mesmo lugar, os mesmos equipamentos utilizados para o corte e tratamento dos cabelos dos fregueses, a mesma cadeira apoiando revistas de diversos assuntos, o mesmo relógio e também os mesmos assuntos abordados em meio a piadas um pouco sarcásticas entremeadas com momentos de silêncio e reflexão. Tudo detalhadamente mantido em 49 anos!

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O barbeiro (Fonte: http://www.italiatua.it/userimg/792.jpg )

 

De maneira semelhante aos barbeiros, gerações de machos das rendeiras podem permanecer no mesmo local por décadas. As rendeiras são pequenos pássaros habitantes das florestas tropicais do Brasil e América Latina1. No Brasil, o nome popular desta espécie foi designado pela semelhança do som que os machos emitem quando atritam suas asas rapidamente uma contra a outra com as “verdadeiras” mulheres rendeiras de Portugal e do Brasil. Há vários séculos, as mulheres rendeiras tecem suas rendas com o auxílio de pequenas esferas de bilros, que podem ser de madeira ou osso. Ao se chocarem, os bilros emitem um som característico parecido com a do pássaro em cortejamento.

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Rendeira (Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-Fz_5tBcIvFk/UJlZwjIy0GI/AAAAAAAAAVw/IUuR_RCGawQ/s1600/zzz2rendeira.JPG )

Os machos do pássaro rendeira, cujo nome na ciência é Manacus manacus, atritam suas asas em movimentos rápidos como uma das formas de chamarem a atenção das fêmeas e se acasalarem com elas. Cada macho possui uma “arena” caracterizada como uma área oval no solo da floresta da qual removem folhas e detritos2. As arenas são próximas umas das outras (podem variar de 1 a 82 metros de distância) e os machos praticam manobras de cortejamento em uma espécie de “dança”, competindo entre si para atrair as fêmeas. Geralmente, machos mais vigorosos, donos das melhores arenas, acabam se acasalando com a maioria das fêmeas. Em um estudo conduzido na ilha de Trinidad, norte da América do Sul, um pesquisador resolveu voltar após 42 anos para saber se as mesmas arenas estudadas por antigos pesquisadores ainda estavam sendo utilizadas por machos de rendeiras, e foi uma grande surpresa detectar que a maioria das arenas ainda estavam lá e ativas3! Obviamente, não eram os mesmos machos de décadas atrás, pois estas aves podem viver aproximadamente 15 anos, durante os quais podem permanecer vários deles (até 11 anos!) na mesma arena. Desta forma, passaram-se no mínimo quatro gerações de rendeiras até a redescoberta das “arenas de Trinidad”!

No processo de substituição de machos de rendeira, os mais velhos morrem por senescência e os menos vigorosos (velhos ou não) são substituídos por outros mais fortes no inevitável processo de seleção sexual4 prevalecente nesta espécie.

Rendeira (o macho de Manacus manacus). Foto de C. Cestari.

Rendeira (o macho de Manacus manacus). Foto de C. Cestari.

As rendeiras, tal como os barbeiros, possuem um papel (no caso, mais ecológico do que social) importante em suas vidas. Esses pássaros são frugívoros e também dispersam uma alta variedade de sementes, contribuindo assim para a disseminação das plantas5. Eu acompanho as rendeiras há alguns anos na restinga, um ecossistema de Mata Atlântica que está severamente ameaçado pela especulação imobiliária. Tal como aconteceu com o barbeiro, espero poder voltar daqui a algumas décadas aos mesmos locais de estudo e encontrar as rendeiras, nas mesmas arenas que conhecem tão detalhadamente, com seu ritual de limpeza, cortejamento e dispersão de sementes.

Para saber mais:

  1. Sick, H. 1997. Ornitologia brasileira. Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
  2. Cestari, C. & Pizo, M. A. 2014. Court cleaning behavior of teh White-bearded Manakin (Manacus manacus) and a test of the anti-predation hypothesis. Wilson Journal of Ornithology 126: 98-104.
  3. Berres, M. E. 2002. Long-term persistence of White-bearded Manakin (Manacus manacus) lek in the Arima Valley of Trinidad, West Indies. Studies in Trinidad and Tobago Ornithology (F. E. Hayes and S. A. Temple, eds.). Department of Life Sciences, University of the West Indies, St. Augustine, Occasional Papers 11, 131-138.
  4. Darwin, C. 1871. The descent of man, and selection in relation to to sex. John Murray. London.
  5. Snow, D. 1962. A field study of the Black and white Manakin, Manacus manacus, in Trinidad. Zoologica 47: 65-104.

5 Comentários

  1. Excelente texto, como sempre. Essas renderias são fantásticas!

    • Que bom que gostou do texto Cristiano! Abs

  2. Caraca, cheguei aqui através de pesquisas na Internet, o som q esse pássaro emite ao bater as asas me espantou, assim como minha noiva e meu cunhado, estavamos fazendo uma trilha em uma serra aqui em saquarema, Ate quê esse pássaro começou a se agitar com a nossa presença e começaram a emitir o som das asinhas… Tinha muito!!! Perfeito, fiquei feliz com essa matéria.

  3. Tambem cheguei através de pesquisa na internet…só que estou procurando por um pássaro que é semelhante a uma andorinha…inclusive voando em bandos nos finais de tarde…
    Li em algum lugar que este pássaro , chamado BILRO, não tinha penas mas pelos, como os morcegos…
    Alguem sabe de alguma coisa deste tipo?

    • Gustavo, Obrigado pelo interesse, mas se tem pelos não é ave, é mamífero.

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