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Vida outdoor, Ornitologia, Literatura Selvagem

Quanto mais sociável

Texto de César Cestari

aves marinhas_Cesar Cestari

Aves marinhas (Foto de C. Cestari).

 

Quanto mais sociável, melhor.

Alguma vez você já se perguntou com quantas pessoas você frequentemente interage em sua rotina diária ou em redes de interações sociais, por exemplo, o facebook? Em nossa sociedade, os indivíduos com alta interatividade são considerados mais comunicativos, dinâmicos e sociais. Em situações de ausência de competição, o alto grau de sociabilidade de uma pessoa pode ser extremamente agradável e benéfico. Entre as aves, esta situação muitas vezes é semelhante: a alta sociabilidade entre diferentes espécies também pode ser extremamente benéfica. Por exemplo, em florestas tropicais e subtropicais, várias aves participam de bandos mistos, nos quais diferentes espécies se reúnem e se deslocam em coesão à procura de alimentos, tais como artrópodos e frutos. O fato de se deslocarem em conjunto, procurarem recursos e se comunicarem frequentemente ajuda a revelar com mais facilidade potenciais presas que possam estar escondidas entre frestas de troncos, galhos, folhas, ou até mesmo ajudam na detecção de frutos com menor acessibilidade na floresta. Nestes bandos, alguns indivíduos agem como sentinelas e alertam os outros indivíduos do bando sobre qualquer ameaça próxima. Dessa forma, o deslocamento ordenado de bandos mistos de aves florestais pode aumentar a probabilidade de encontrar alimento ou se defender contra possíveis ameaças1,2.

As praias do litoral brasileiro também são ocupadas por várias espécies de aves que residem o ano todo ou frequentam este hábitat somente parte do ano (p.ex., as aves migratórias). Gaivotas, garças, trinta-réis, quero-queros, urubus e caracarás são alguns exemplos de aves residentes. Maçaricos e batuíras formam o grande número as aves que migram do Hemisfério norte para as praias do Hemisfério sul durante nosso verão austral. Dentre todas essas aves, as batuíras e maçaricos, especificamente, Charadrius semipalmatus (batuíra-de-bando), Calidris fuscicollis (maçarico-de-sobre-branco) e Calidris alba (maçarico-branco) são extremamente sociáveis com as outras espécies de aves, migratórias ou residentes3. De maneira semelhante às aves florestais, a alta sociabilidade das aves em ambientes abertos como as praias lhes trazem benefícios, tais como identificação prévia de potenciais predadores (p.ex., raposas, aves de rapina e o próprio homem)4, ou a identificação de áreas com alta quantidade de recursos (abrigos, alimentação)5 pela percepção de grande concentração de aves ocupando uma determinada área. É razoável supor que estes benefícios sejam muito importantes, principalmente para as aves migratórias que necessitam percorrer milhares de quilômetros para chegarem ao seu destino!

Ao longo da evolução, indivíduos e espécies se diversificam e adaptam-se diferentemente na forma em que exploram os seus hábitats6. Como reportado por ecólogos no início do século XX em teorias como “o princípio de exclusão competitiva”, é impossível a sobrevivência igualitária de duas espécies explorando de maneira idêntica o mesmo recurso7. Ao longo de um curto prazo de tempo, uma das espécies sempre será superior na exploração deste recurso e portanto, sobreviverá. Assim, a alta sociabilidade entre espécies de aves em qualquer ambiente só é possível pelas suas diferentes maneiras de explorar o mesmo tipo de recurso ou pela exploração de recursos diferentes por diferentes espécies em um mesmo local. Tais diferenças às vezes são muito sutis, mas suficientes para permitir a coexistência.

Como nem toda convivência é completamente positiva, em alguns casos, o convívio próximo entre espécies de aves pode facilitar a transmissão de doenças infecciosas e ter consequências negativas para a sobrevivência de populações. No entanto, isto é assunto para outro texto. Por enquanto, salvem as diferenças e a alta sociabilidade entre as espécies.

 

Para saber mais:

  1. Stotz, D. F. 1993. Geographic variation in species composition of mixed species flocks in lowland humid forests in Brazil. Papéis Avulsos de Zoologia, 38: 61-75.
  2. Thiollay, J. M. & Jullien, M. 1998. Flocking behaviour of foraging birds in a neotropical rain forest and the antipredador defence hyphotesis. Ibis, 140: 182-194.
  3. Cestari, C. 2009. Heterospecific sociality of birds on beaches from southeastern Brazil. Zoologia, 26: 594-600.
  4. Elgar, M. A. 1989. Predator vigilance and group size in mammals and birds: a critical review of the empirical evidence. Biological Review, 64: 13-23.
  5. Smith, J. P. 1995. Foraging sociability of nesting wading birds (Ciconiiformes) at lake Okeechobee, Florida. Wilson Bulletin, 107: 437-451.
  6. Darwin, C. 1859. On the origin of species by means of natural selection. Murray, London.
  7. Gause, G. F. 1934. The struggle for existence. Williams & Wilkins, Baltimore.

2 Comentários

  1. Marcos bom dia! Meus parabéns por este magnífico blog e ao César pelo texto, muita informação expressiva e interessante de verdade. Estou ultimamente lendo algumas coisas sobre uso do habitat das aves brasileiras, principalmente as migratórias costeiras e esta postagem está demais. Estou publicando aqui mas este é o segundo texto que leio no blog e não estou conseguindo parar de ler! rsrs.

    Parabéns mesmo pelo blog, grande abraço!

    Lucas.

    • 😉

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